Guia prático
Avaliação de riscos psicossociais na NR-1: passo a passo
Por Elisandra de Cássia Carmo · CRP 06/92889
Psicóloga Comportamental | Gestão de Riscos Psicossociais · atualizado em 1 nov 2026
Diagnóstico com os fatores do MTE, PGR e plano de ação, grátis para até 10 colaboradores.
Começar grátisO que é a avaliação
É a etapa do gerenciamento de riscos em que a empresa descobre se os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho estão presentes e qual o tamanho de cada risco. Ela olha para as condições e a organização do trabalho, não para a saúde de cada pessoa. O que são esses fatores e a lista do MTE estão em Riscos psicossociais no trabalho: o que são e como avaliar. O que a norma exige e o status das multas, em NR-1 atualizada: o que é e o que mudou.
Passo a passo da avaliação
- Preparar. Defina quem conduz e quem decide, com conhecimento técnico adequado, e envolva a direção, o RH, o SST e a liderança. Se possível, ouça a CIPA e os representantes dos trabalhadores na escolha do método e avise os trabalhadores com antecedência: o que vai ser feito, por quê e o que se espera.
- Delimitar. Mapeie unidades, setores, atividades, turnos e grupos de exposição, incluindo o trabalho presencial, remoto e híbrido.
- Reunir as informações de partida. Junte avaliações anteriores, processos, jornadas e dados agregados de afastamentos, rotatividade e relatos. Use esses dados como sinais para investigar, sem presumir causas.
- Escolher o método conforme o porte. Observação do trabalho real e conversa com os trabalhadores, questionários com base científica ou oficinas moderadas. O MTE pede que a ferramenta seja adequada ao risco e ao porte, tenha fundamento científico e seja aplicada por quem saiba usá-la. Com questionário, o anonimato é essencial.
- Levantar os fatores no trabalho real. Investigue o que de fato é feito, e não só a tarefa prescrita: sobrecarga, metas incompatíveis, falta de autonomia ou de apoio, conflitos de papel, assédio, violência, comunicação e isolamento. Registre a situação, a fonte e o grupo exposto.
- Classificar cada risco. Combine a severidade dos possíveis agravos com a probabilidade de ocorrerem, pelos critérios registrados no GRO, e defina as prioridades. Risco evidente pede medida imediata, sem esperar o fim do levantamento.
- Registrar no inventário e no plano de ação. Cada risco entra no inventário do PGR, ou na AEP no caso das empresas dispensadas do PGR, e cada medida entra no plano de ação com responsável, prazo e forma de acompanhamento.
- Acompanhar e reavaliar. Verifique se as medidas aconteceram e se reduziram o risco, com a participação dos trabalhadores. A avaliação é um processo contínuo, revisto a cada dois anos e sempre que ocorrem as situações previstas na NR-1, como mudanças no trabalho ou falhas nas medidas de prevenção.
Qual instrumento usar
O MTE não indica uma ferramenta específica. Em empresas grandes, o questionário costuma fazer sentido; nas pequenas, a oficina ou a observação. Quatro caminhos comuns:
- COPSOQ II-Br. Questionário de origem dinamarquesa que integra vários modelos de fatores psicossociais. A versão curta foi adaptada e validada para o Brasil (Gonçalves e colaboradores, Revista de Saúde Pública, 2021), com 7 domínios e 11 dimensões. Indicado para empresas médias e grandes que vão aplicar questionário.
- PROART. Protocolo de Avaliação dos Riscos Psicossociais no Trabalho, desenvolvido no Brasil a partir da Psicodinâmica do Trabalho (Facas, UnB, 2013). Reúne escalas sobre a organização do trabalho, o sofrimento e os danos relacionados ao trabalho.
- HSE Indicator Tool. Questionário britânico ligado aos Management Standards do órgão de saúde e segurança do Reino Unido (demandas, controle, apoio, relacionamentos, papel e mudanças). Não encontramos validação brasileira publicada, e as referências de comparação são britânicas: use com essa ressalva.
- Oficinas e observação. Para empresas pequenas, o próprio MTE aponta a oficina moderada ou a observação do trabalho com conversa com os trabalhadores como alternativas ao questionário.
Qualquer que seja a escolha, registre o método, a fundamentação, quem aplicou e as limitações, e cite o estudo que embasa a versão usada.
Exemplo de matriz de risco
Este é um exemplo ilustrativo, com as faixas usadas na plataforma Entendimente. A severidade (1 a 5) é multiplicada pela probabilidade (1 a 5), e a pontuação define o nível do risco:
- até 2: trivial;
- 3 a 6: tolerável;
- 7 a 12: moderado;
- 13 a 20: substancial;
- acima de 20: intolerável.
Imagine uma central de atendimento com sobrecarga: volume de chamadas acima da capacidade da equipe, horas extras frequentes e pausas ignoradas. Como a sobrecarga pode levar a transtorno mental e DORT, a severidade foi avaliada em 4. Como a exposição é diária e os controles atuais são fracos, a probabilidade também foi avaliada em 4. A pontuação é 16: risco substancial, que entra como prioridade no plano de ação.
Cada empresa define e registra os próprios critérios no GRO. A pontuação de uma ferramenta não dispensa a análise do profissional responsável, que confronta os números com o que observou no trabalho.
Como registrar no inventário
No exemplo acima, o registro no inventário traria o conteúdo mínimo exigido pela NR-1:
- Processo e atividade: atendimento telefônico ao cliente.
- Perigo e fonte: excesso de demandas (sobrecarga), causado pelo volume de chamadas e pelo dimensionamento da equipe.
- Possíveis agravos: transtorno mental e DORT.
- Grupo exposto: atendentes dos turnos da manhã e da tarde.
- Medidas existentes: pausas previstas na escala, sem controle de cumprimento.
- Caracterização da exposição e classificação: exposição diária; severidade 4, probabilidade 4, risco substancial.
No plano de ação entram as medidas, de preferência na organização do trabalho: rever o dimensionamento, priorizar tarefas com metas realistas e garantir as pausas, cada uma com responsável, prazo e forma de acompanhamento. O Entendimente faz esse ciclo numa plataforma, do diagnóstico ao PGR assinado. Veja os planos.
Checklist de implantação, grátis
Três páginas para conferir, com RH, SST e liderança, o que já está implantado e tem evidência: governança, integração ao GRO/PGR, avaliação, participação, plano de ação, escuta, documentação e acompanhamento.
Perguntas frequentes
A avaliação de riscos psicossociais é obrigatória para todas as empresas?
Sim. Toda empresa com empregados CLT precisa identificar e avaliar os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, pela Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) da NR-17, dentro do gerenciamento de riscos da NR-1. O porte muda o documento: o MEI e as ME/EPP de grau de risco 1 e 2 podem ser dispensados do PGR, e nesse caso a AEP é o registro.
Preciso aplicar um questionário?
Não necessariamente. O MTE não indica uma ferramenta específica: a empresa pode observar o trabalho real e conversar com os trabalhadores, aplicar questionários com base científica ou fazer oficinas. O método precisa ser adequado ao risco e ao porte.
Qual questionário usar no Brasil?
Entre os instrumentos com validação brasileira publicada está a versão curta do COPSOQ II-Br (Gonçalves e colaboradores, Revista de Saúde Pública, 2021). O PROART é um protocolo brasileiro, da Psicodinâmica do Trabalho. Qualquer que seja a escolha, cite o estudo que embasa a versão usada.
Como classificar o risco depois do levantamento?
Combinando a severidade dos possíveis agravos com a probabilidade de ocorrerem, pelos critérios que a empresa registrou no GRO. A avaliação pode ser qualitativa, feita pelo profissional a partir das condições encontradas.
De quanto em quanto tempo refazer a avaliação?
A avaliação de riscos é um processo contínuo, revisto a cada dois anos e também sempre que ocorrem as situações previstas na NR-1, como mudanças no trabalho, falhas nas medidas de prevenção ou indícios de adoecimento.
Para aprofundar
- Riscos psicossociais: como mapear com o COPSOQ em 6 etapas, com instrumento validado cientificamente
- Fatores de risco psicossociais na prática: a lista do MTE
- Matriz de evidências da NR-1: como saber se sua gestão fica de pé numa fiscalização?
- Registros eletrônicos na NR-1: como documentar boa-fé e blindar a empresa contra multas
- Judicialização da NR-1. Já posso suspender as ações?
Fontes oficiais
- Guia de informações sobre os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho (MTE, 2025)
- Perguntas e respostas sobre o capítulo 1.5 da NR-1 (MTE, maio de 2026)
- NR-1 (texto vigente), Ministério do Trabalho e Emprego
- Gonçalves JS, Moriguchi CS, Chaves TC, Sato TO. COPSOQ II-Brazil, versão curta. Rev Saúde Pública, 2021
- Facas EP. Protocolo de Avaliação dos Riscos Psicossociais no Trabalho (PROART). Tese, UnB, 2013
Conteúdo escrito e revisado por Elisandra de Cássia Carmo, Psicóloga Comportamental | Gestão de Riscos Psicossociais, CRP 06/92889. Material informativo: não substitui a leitura da norma nem a orientação técnica para o caso da sua empresa.
